Rapper Tio Phil desabafa sobre prisão injusta: “é um se liga para o Estado”

Rapper ficou preso injustamente por um ano e sete meses; agora dá a volta por cima e é artista da Universal Music

Imagine-se nesta situação: você é um jovem artista, crescendo pouco a pouco sua influência dentro de sua comunidade. Organiza batalhas de rima, trabalha para se sustentar e sonha em viver de rap. Mas, em um dia qualquer, é chamado a prestar depoimento na delegacia. Comparece, mesmo sem saber o motivo ao certo. Mas, sem explicações concretas, acaba preso.

Foi isso que aconteceu com Raphael Rogério, mais conhecido como Tio Phil. Preso injustamente no dia 2 de agosto de 2019, o artista conta sobre o período mais difícil de sua vida no mais recente single “150 no Maço”, que contou com produção musical da Supernova Ent e está disponível nas plataformas digitais.

“Era uma semana perfeita. Fechei um show do Delacruz no domingo. Ele fez mó showzão e tive a oportunidade de cantar depois. Na segunda foi tudo lindo, várias criancinhas pediram para tirar foto comigo. Na terça-feira, a batalha de rima lotou, quarta seguiu na tranquilidade. Mas, na quinta, os policiais foram na casa da minha mãe, botaram a arma na cara do meu irmão de 11 anos, não tinham mandato e reviraram a casa toda”, relembra o rapper em entrevista exclusiva para o RAP NA RUA.

No dia seguinte, ele foi até a delegacia para saber o que havia acontecido. “O delegado disse que me confundiram com alguém que tinha feito um roubo. enquanto isso os policiais faziam cara de deboche. Quando penso que não, o delegado vira o computador para mim, ele parecia até triste como se não fizesse parte daquela situação toda, e perguntou: ‘e esse mandato aqui? De tentativa de homicídio’. Eu tomei um susto e falei ‘com todo respeito, o senhor está de sacanagem né? Como assim? Quer dizer que estou preso então?’. Fui preso no dia 2 de agosto de 2019”.

De acordo com dados do Condege e da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, entre 2012 e 2020, 90 pessoas foram presas injustamente por conta de reconhecimento por fotografia. 83% dessas pessoas eram negras. Além disso, 80% ficou detido por mais de um ano.

Tio Phil ficou preso por um ano e sete meses no Complexo Penitenciário de Gericinó, Bangu 10.. No dia de sua audiência, cantou a música que acaba de lançar para o público. “Marcaram a audiência para 16 de março de 2021. Antes dela, o policial me perguntou por que estava preso. Disse que era inocente, era músico e tava lá injustamente. Ele me pediu para cantar e comecei a letra de 150 no Maço. Nisso, o juiz estava na sala ao lado e viu. 10 minutos depois a minha defensora disse que eu seria solto, nem passei pela audiência. Três dias depois, eu ganhei meu alvará”.

Com facilidade e talento para compor, o rapper conta que criou mais de 100 músicas enquanto esteve preso. “150 no Maço” é justamente um desabafo, para virar essa página de vez. No audiovisual, o artista mostra um pouco da vivência atrás das grades, lugar que espera nunca mais voltar. 

O single marca um novo momento na carreira do artista. Ele agora faz parte da gravadora Universal Music e quer mostrar para o mundo que é possível superar as adversidades, sem nunca desistir dos próprios sonhos. “Ainda nem caiu a ficha do que tem acontecido. Hoje em dia vejo tudo de uma forma diferente, como uma superação mesmo. Tenho outra mentalidade, agora acredito que tudo é possível superar. Cada um tem que matar o seu leão, infelizmente a vida engole os fracos”, reforça.

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