Quinta-feira, 8 de outubro de 2026
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Adriel Bicho Solto apresenta faixa a faixa o álbum “O Peão Virou Rei” e a construção do Olodrill

Com 11 faixas, disco transforma a trajetória do rapper entre Bahia e São Paulo em uma narrativa de resistência, ancestralidade e transformação

Créditos: Pri Lippi

Com mais de duas décadas de trajetória no Hip Hop, o rapper, compositor e ativista cultural baiano Adriel Bicho Solto transforma sua própria caminhada no ponto de partida de “O Peão Virou Rei”, seu novo álbum. Natural de Alagoinhas, na Bahia, e vivendo em São Paulo desde 2023, o artista atravessa no disco as experiências, dificuldades e transformações que marcaram sua trajetória entre o Nordeste e o Sudeste.

Com 11 faixas, o trabalho também apresenta o Olodrill, conceito desenvolvido por Adriel a partir do encontro entre o drill e o universo cultural do Olodum. A proposta não é simplesmente colocar percussões baianas sobre beats de drill, mas aproximar duas linguagens a partir de elementos que, para o artista, estão no DNA dessa construção: ancestralidade, resistência, identidade e causa.

O nome do disco vem a partir de uma metáfora do xadrez: ao atravessar o tabuleiro e chegar ao outro lado, o peão pode ser promovido a uma peça de maior valor. Para Adriel, essa imagem representa sua própria trajetória: o deslocamento da Bahia para São Paulo, os obstáculos enfrentados no caminho e a transformação de cada experiência em matéria-prima para sua música.

Em “O Peão Virou Rei”, passado e presente se encontram em beats de drill, tambores, samples, referências à música baiana e relatos pessoais. A seguir, Adriel Bicho Solto apresenta faixa a faixa o álbum e conta as histórias, escolhas e referências que estão por trás de cada música.

Faixa a faixa — O Peão Virou Rei

1. Confiante

“Confiante” abre o álbum apresentando a estética do Olodrill. O beat de Edubeatz, que também assina singles de L7NNON, Central Cee, Major RD e TOKIODK, cria um clima tenso e incorpora um sample de “Vem Meu Amor”, do Olodum. Na letra, começo falando sobre minhas características, minhas roupas e meus adereços, mas logo entro num lugar de provocação: “quem são vocês?”. É uma faixa de afirmação, em que digo quem fui, quem sou e quem quero ser, mesmo diante de um cenário cheio de dúvidas. No final, cravo: “isso aqui é Olodrill”. É a apresentação oficial dessa linguagem que estou construindo.

2. O Peão

“O Peão” é o portal para a história que atravessa todo o álbum. O beat de Rzl Prod traz violão com uma pegada nordestina e percussões, enquanto a letra conta tudo o que vivi com minha família em São Paulo e essa transição dentro da maior metrópole da América do Sul. As frases são carregadas de sentimento e a faixa ainda traz áudios reais da minha irmã e da minha mãe. É onde começo a abrir as portas da minha vida para quem está ouvindo.

3. Cheio de Ódio

Rzl Prod mistura jazz e drill em um beat reflexivo, mas sem perder o peso do grave. A letra nasce de um período em que eu estava correndo atrás da minha carreira musical e recebendo “não” de produtoras, gravadoras e de pessoas que eu esperava que respeitassem meu trabalho. Toda essa falta de oportunidade e de respeito foi fazendo aquele sentimento de ódio crescer dentro de mim. Transformei esse ódio em combustível para mostrar que eu podia e era capaz de construir algo grandioso.

4. Passa Nada

“Passa Nada”, produzida por Scooby – que já trabalhou com Matuê, Teto e WIU – é um drill pesado e dá continuidade ao sentimento de “Cheio de Ódio”. É um desabafo sobre tudo o que eu e minha família passamos em São Paulo. A letra funciona quase como um diário de pensamentos, colocando para fora a raiva diante da falsidade e do racismo que encontrei pelo caminho. Em determinado momento, a música ganha quase um caráter de aula de história, relacionando o racismo de ontem às formas como ele continua se manifestando hoje. O próprio título vem de uma gíria da Bahia e traduz esse estado de não deixar determinadas coisas passarem.

5. VIROU

“VIROU” é produzida por Edubeatz e traz um sample de “Chicleteiro Eu, Chicleteira Ela”, do Chiclete com Banana, além dos arranjos de percussão de Rzl Prod. É um dos pilares do álbum porque representa justamente a virada de chave que começava a acontecer na minha vida. A faixa tem a força e a originalidade do Olodrill e fala desse momento em que tudo começa a mudar de direção.

6. Juramento

Produzida por Junior Carvalho, meu conterrâneo de Alagoinhas, “Juramento” nasceu da ideia de samplear Legião Urbana, com novos arranjos de percussão de Rzl Prod. A música é literalmente um pacto que faço com a minha família. Falo com minha mãe, meu pai, minha esposa, minha filha, minha irmã e meus irmãos de rua e juro que vou buscar nosso progresso com honra e dignidade. Também falo sobre meu irmão Daniel e o perdão que fez parte dessa trajetória. É uma promessa de que, daqui para frente, vou defender os meus e seguir em busca daquilo em que acredito. No final, a promessa é também para mim mesmo: ser rei das minhas próprias convicções.

7. Minha Letty

“Minha Letty” tem produção de Rzl Prod e traz uma perspectiva diferente sobre o amor. É uma música sobre a admiração que tenho pela minha esposa e pelo nosso relacionamento, que conseguiu atravessar o tempo e tudo o que veio com ele. A letra é irreverente e compara minha esposa a três personagens femininas que admiro: Letty, de Velozes e Furiosos; Maria Bonita, companheira de Lampião e figura histórica do cangaço; e Arlequina, pela sua relação com o Coringa. É uma declaração de amor do meu jeito.

8. Rei

“Rei” é uma das músicas-chave do álbum. Edubeatz constrói a produção a partir de um sample de “Faraó – Divindade do Egito”, na voz de Margareth Menezes, uma música diretamente ligada à história do Olodum. A letra é cheia de afirmações sobre as decisões que tomei e sobre o momento em que entendi que havia me tornado rei de mim mesmo. É quando a metáfora do peão que atravessa o tabuleiro começa a se completar.

9. A Bahia Não é Wakanda

Em “A Bahia Não é Wakanda”, Rzl Prod mistura funk e drill com uma atmosfera quente que remete à Bahia. A letra, porém, caminha na contramão desse clima e questiona a imagem idealizada que muitas vezes se constrói sobre o estado. A referência a Wakanda, cidade fictícia de Pantera Negra, serve justamente para fazer esse contraste: apesar da enorme presença da população negra, a Bahia também enfrenta problemas relacionados ao racismo e à violência, sendo o estado em que a letalidade policial está entre as maiores do Brasil. É uma faixa de crítica social que confronta a imagem de uma Bahia quase fantástica com as contradições vividas por sua população.

10. A ideia é uma só

Com produção de Scooby, “A ideia é uma só” mergulha no drill de rua. Eu queria criar uma atmosfera meio sinistra, como aquela sensação de andar pelas ruas à noite. A letra traz experiências que vivi, vi e ouvi, além de muitas gírias e expressões da Bahia. É uma música sobre manter uma ideia, uma postura e uma direção, sem fazer curva. A ideia pode até mudar para cada pessoa, mas, para mim, ela deveria ser uma só: seguir aquilo em que se acredita.

11. Nunca Foi Sorte

“Nunca Foi Sorte” fecha o álbum com uma afirmação sobre origem e trajetória. Rzl Prod mistura berimbaus, percussões e drill para criar a base da faixa, enquanto eu reafirmo de onde vim e tudo o que precisei enfrentar para chegar até aqui. É também uma defesa da nossa forma de falar, das nossas gírias, do nosso sotaque e da nossa música. Nada disso chegou até aqui por acaso. Tudo foi conquistado com luta. Por isso, o título resume a ideia que encerra o disco: nunca foi sorte, sempre foi luta.

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