A história do funk brasileiro reúne diferentes cenas, territórios e trajetórias. Para construir essa homenagem, o Red Bull Symphonic escolhe um ponto de vista específico: o funk paulista, contado pelo olhar de MC Hariel. É a partir de suas referências, vivências e encontros que o espetáculo constrói sua narrativa.
A experiência de Hariel funciona como fio condutor para conectar diferentes capítulos da história do funk paulista, reunindo artistas, músicas e momentos que marcaram sua formação e ajudaram a construir sua identidade. Ao longo do espetáculo, sua trajetória individual se entrelaça à história coletiva do movimento, revelando como o funk acompanha e transforma diferentes gerações.
O resultado é uma homenagem que parte da Baixada Santista, percorre diferentes momentos do funk em São Paulo e acompanha a própria transformação do artista. A experiência de Hariel conecta essa história coletiva a temas que atravessam sua trajetória, como pertencimento, superação e futuro.
A música sempre esteve na sua vida?
MC HARIEL: A música era um bagulho inerente à minha vida. Tudo que eu ia fazer, eu me imaginava sempre fazendo música. Já fiz teste em time de futebol, fiquei uma semana em Santos fazendo teste, mas não deu certo, não era pra mim. A música estava caminhando comigo pra onde eu fosse, em qualquer profissão, em qualquer caminho, então falar que eu queria ser músico desde pequeno: a música já estava em mim, eu já era músico desde pequeno. Eu tentei fazer outras coisas, mas fazer música, do meu jeito, sempre foi o natural.
Eu escrevo desde pequenininho. O primeiro som que lancei foi por volta de 2011, uma letra de festa, de roupa, ostentação, que foi a primeira que coloquei no YouTube, mas eu já tinha escrito várias antes e gostava de compor desde pequeno. Gostava de redação, sempre tirava nota boa e sempre tive uma criatividade da hora, uma vez escrevi uma música gospel, devia ter cinco ou seis anos.
Quando meu pai era vivo, nossas brincadeiras eram inventar palavras e achar rimas. Meu pai também era compositor, então ele fazia umas brincadeiras bem lúdicas pra esse lado da criação.
Eu tentei fazer outras coisas mais pra me desafiar, porque a música pra mim sempre foi um bagulho que eu amei e que era fácil. Era mais um hobby do que um desafio. Eu só fui entender a música como trabalho depois que ela já tinha se transformado nisso.
O que a música passou a representar para você depois da morte do seu pai?
MC HARIEL: Pra mim era um bagulho de fazer um som, se sentir bem, se sentir pertencente a uma rapaziada, porque eu tinha acabado de perder meu pai e estava me sentindo meio: qual é a minha laia? Acho que, mais do que superação, a música foi um lugar pra eu não me perder. Um lugar de me aterrar no chão, de não deixar minha cabeça ir pra lua.
Eu moro numa comunidade pequena, mas tem sete biqueiras ativadas sempre lá. É muita venda de droga e muita coisa acontecendo, então é fácil se perder. A música e o futebol funcionam como válvula de escape porque a nossa realidade é difícil. Às vezes a gente tá com trezentos problemas na cabeça, além dos problemas da nossa mãe, dos nossos irmãos e dos nossos primos. Quando a gente tá fazendo música ou jogando bola, tudo isso meio que apaga.
Todo mundo também quer comprar uma casa, ter um carro ou uma moto pra não precisar mais subir o morro a pé. Essa parte material existe. Mas eu fui um moleque que foi pego mais pela inclusão do que pelo outro lado. Eu estava me sentindo sem amigo. Colava com uns moleques e, em brincadeira de criança, um xingava o pai do outro. Pra mim já não dava, porque eu tinha acabado de perder o meu e aquela rapaziada não tinha a mesma vivência.
Eu pensava: “Isso aqui não é pra mim. Vou ficar saindo na mão todo dia porque alguém xingou meu pai e não vou conseguir explicar pra molecada nova”. A vida da gente vai mudando através dos traumas.
Por isso, ter lugares de inclusão é mais importante até do que, se pá, a ascensão e a parada material que a gente olha. A pessoa saber que faz parte de um grupo é importante para caráter, ética, para entender suas raízes e quem é você. Isso é difícil quando a gente tá na favela, porque a gente se interessa pelo que tá na rua.
O que te tocou no Red Bull Symphonic e nesse encontro entre o funk e a música sinfônica?
MC HARIEL: Acho que foi essa conexão da música de favela com a música sinfônica, com a música clássica. Tem um projeto na Xaolin Records que a gente trabalha que chama Recital de Rua. Pra nós, a música clássica é o funk.
A porta de entrada para nossa juventude conhecer as sinfonias e esse universo foi o funk, pelos pontinhos que o DJ colocava pra nós. A gente conhece ainda por cima, porque é um universo que não desbravou completamente, mas foi o funk que abriu essa porta.
Unir esses dois universos é unir o que a galera quer ouvir com talvez o que a galera também precisa ouvir. Vai ser bom ter esse contato e facilitar pras pessoas terem acesso à cultura. Do jeito que as coisas estão, fica difícil. Quando algo é muito elitizado, a pessoa pode pensar: “Não vou escutar isso porque vai mexer na minha raiz, vai mudar quem eu sou”.
A juventude tem uma necessidade de se sentir parte de alguma coisa. Depois, acho que o ser humano vai perdendo um pouco isso e entende que já é quem é, esteja onde estiver. Mas, enquanto a gente é novo, sente medo de se descolar do que é ou do que acredita que é naquele momento.
A música clássica, o Funk Superação e o Red Bull Symphonic são um convite, uma porta de entrada para um futuro em que essa rapaziada pode amadurecer e conhecer diversas coisas. Muitas pessoas falam que o funk não é cultura porque não tem acorde, que não é respeitado porque não tem músico. Então vamos fazer essa porra. Nós temos potencial.
O que significou aceitar este projeto e qual é o seu papel dentro dele?
MC HARIEL: Eu me senti feliz demais e enxergo que meu papel é fazer a tradução do que é o nosso movimento pelas partes boas, porque as partes ruins chegam pelas mídias e pelos veículos. É só um MC cometer uma falha ou acontecer qualquer problema na vida dele que começam as perguntas: por que essas pessoas estão aí, por que a gente dá fama pra elas, porque têm palco, será que isso é música?
Quando eu recebi esse convite, o funk estava vivendo coisas maravilhosas, mas também começaram a acontecer muitas coisas ruins dentro do movimento. Não é só preconceito, muitos artistas do nosso gênero pisam na bola também. Mas coisas que, em outros segmentos, levariam as pessoas a trazer o artista para perto, tentar ensinar e mostrar um caminho, quando é no funk já tentam excluir. Não tem segunda chance.
Então meu papel foi mostrar o lado bom. Chegavam dez notícias ruins, eu mostrava dez notícias boas. Funk não é o que a mídia mostra. O funk é o que acontece na rua e a mídia faz questão de não mostrar.
Tem muita marca que quer se apropriar da estética e se aproximar de um movimento que gera consumo, engajamento e alcance, tudo de forma real, sem ser comprado. A Red Bull teve a coragem de seguir com o projeto, acreditar no movimento, aprender e conhecer as pessoas que fazem o funk ser forte do jeito que ele é, e não só quem ficou famoso através dele. Isso tem que ser registrado. A Red Bull foi foda.
Isso também faz parte do que eu quero levar pra minha vida. A partir do momento em que consigo furar essa bolha de ser um MC de funk e passo também a conversar com marcas, trabalhar com publicidade e usar meu alcance pra ganhar dinheiro e mostrar coisas pras pessoas, pra mim só faz sentido estar com marcas que queiram estar de mãos dadas comigo de fato, no shopping ou na favela.
Não faz sentido ter uma marca do meu lado que só queira estar ali numa situação casual. A marca tem que acreditar no interesse real. Nesse sentido, a Red Bull foi sensacional.
Que história você quer contar sobre o funk paulista?
MC HARIEL: O interesse é mostrar o que realmente é o funk paulista. São anseios e sonhos de pessoas que passam necessidade e dificuldade a vida inteira, numa cidade, num estado de caos capitalista, onde você mora na mesma rua, seu amiguinho tá com uma parada cara pra caralho e o outro não tem o que comer.
O funk paulista é uma celebração de ritmos, é uma celebração de ideias, é um encontro de diversos estados. A gente tem influência nordestina, tem influência de diversos tipos aqui dentro, porque São Paulo é isso. O funk paulista é um grande caldeirão de coisas boas.
Muitas pessoas querem taxar o funk paulista ou falar que ele é alguma coisa. Eu não quero ir de encontro a essas pessoas, acredito que cada um tem que ter a opinião que tiver. Mas quero apresentar pra elas o que é o funk paulista e, se quiserem dar opinião, fica a critério delas. Que exista alguma coisa mostrando o que é o funk paulista mesmo, de verdade.
Como você gostaria que este espetáculo fosse lembrado?
MC HARIEL: Eu gostaria que esse espetáculo fosse lembrado pelo público do funk como o quanto a gente pode ser gigante, o quanto a gente é gigante. E quando eu falo a gente, não sou eu. Falo nós, porque é aquilo da filosofia Ubuntu: eu sou porque nós somos e não teria como eu ser se não fosse todos nós.
Quero que a pessoa olhe e fale: esse projeto mostra como nós é gigante, como nós é foda. Quando a gente escutar alguém falando que a gente não é isso, pode ter certeza que essa pessoa está enganada. Nosso movimento é gigante.
A gente tá prestes a ver uma parada revolucionária. A gente não sabe como vai estar o funk daqui a cinquenta anos, mas eu acredito que vai estar gigante. Vai ser uma parada de que a gente vai se orgulhar muito



