No quarto episódio, o programa recebe a advogada e empresária por trás dos Racionais MC’s para uma conversa íntima e reveladora sobre memórias afetivas, maternidade e, claro, a música que moldou sua história

Eliane Dias e Monique Dardenne_Créditos: @MarcosBacon
O programa “Música que Não Toca” chega ao seu quarto episódio com uma convidada que dispensa apresentações, mas cuja história merece ser contada em cada detalhe. Eliane Dias, advogada, gestora de carreira e uma das figuras mais influentes da indústria musical brasileira, se entregou para um papo que rapidamente transcendeu o óbvio. Mais do que a empresária à frente da Boogie Naipe e gestora de um dos maiores patrimônios musicais do país — os Racionais MC’s —, Eliane revelou a trajetória de uma mulher negra que se reinventou inúmeras vezes, guiada pela música e movida por uma força ancestral.
A conversa, que poderia ter se limitado aos bastidores do mercado, rapidamente se transformou em uma aula de vida, memória e afeto. Eliane chegou trazendo a música na pele, no sangue e no algoritmo. Ela vive da música, criou dois filhos com dinheiro de música, casou com o dinheiro da música, ouve música o tempo todo. Seja no carro, em casa ou descobrindo sons africanos que guiam seu algoritmo, Eliane está sempre em estado de escuta, pronta para levantar o celular e capturar uma nova descoberta, esteja onde estiver.
O primeiro disco escolhido e o nascimento em casa
O primeiro disco escolhido de Eliane não poderia ser outro: Alcione. A memória traz a mãe, Dona Maria Aparecida, uma vitrola antiga na casa humilde em que viviam. A cena é de um afeto poderoso: a mãe linda, de mini saia, se preparando para dançar no fim de semana, e o “esquenta” em casa antes da diversão que até hoje aquece o coração da convidada.
Foi numa conversa recente com essa mesma mãe que Eliane descobriu um segredo que mudou sua perspectiva sobre a própria força. Ao pegar a fundo sua certidão de nascimento para analisar, notou a ausência do hospital. Foi atrás da resposta e ouviu da mãe: “Você nasceu em casa”. Aos 16 anos, mãe solteira e com vergonha de incomodar, Dona Maria Aparecida deu à luz Eliane no quarto da casa de dona Mirtes (que viraria sua madrinha) sem energia elétrica. Foram os vizinhos que ouviram o barulho e a dona da casa quem entrou no quarto para cortar o cordão umbilical.
“Existe uma cultura, que precisa desaparecer, de que a mulher negra precisa suportar tudo”, reflete Eliane.
“Eu mesma tive que suportar muitas coisas e nem sei como estou viva. Mas quando soube como nasci, entendi que aquilo foi a coisa mais difícil que fiz na vida. O resto, eu posso enfrentar.”
O livro encontrado no lixo que traçou o futuro
Antes de ser a poderosa advogada e gestora, Eliane foi a menina que, aos oito anos, encontrou por acaso um livro jogado no lixo. Moradora da comunidade do Parque Santo Amélia, na casa de cuidadores, ela acompanhava seu Juca na tarefa de buscar comida para os porcos. Foi num desses caminhos que achou um exemplar de “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus. Levou o livro para dona Maria, que também era analfabeta, e pediu que a ensinasse a ler as palavras. A resposta foi um oráculo: “Eu ouvi dizer que quem entende das palavras são os advogados”. Naquele instante, com oito anos, Eliane decidiu o que seria.
Quando aprendeu a ler, passou a adolescência devorando dicionários, encantada com sinônimos e palavras difíceis. Foi adulta, há apenas sete anos, quando finalmente pôde conectar os pontos ao participar de uma homenagem a Carolina no bloco Ilu Oba De Min. A emoção de rever aquele destino se fez completa.
Da formatura com a benção da mãe ao caminho até os Racionais
Aos 15 anos, ao terminar a oitava série, veio outro rito fundamental. Sua mãe, que já criava sozinha quatro filhos com dificuldade, fez para ela um vestido lindo na Rua das Noivas, e deu um anel de ouro recebido como salário do trabalho. Chamou um tio para representar a figura paterna na formatura e disse: “Filha, até aqui pude chegar. Daqui pra frente, se quiser estudar, você vai com as suas próprias pernas”. Longe de ser um abandono, Eliane entende aquilo como um ritual de passagem que a transformou na mulher que nunca parou de estudar.
Ela fez de tudo um pouco: curso de secretariado, fotografia, cabeleireira, tentou a marinha, aeronáutica — mas, como ela mesma lembra, não viam mulheres negras naqueles espaços. Passou seis anos em casa dedicada às crianças, se formou advogada, depois trabalhou seis anos na Assembleia Legislativa até que, no meio do caminho, veio o convite que mudaria o jogo: assumir a gestão dos Racionais MC’s.
Ela viu ali uma boa oportunidade de negócio. E colocou a casa em ordem. Mapeou cada sample, foi atrás de liberações, regularizou a parte autoral e profissionalizou a gestão. “Fui aprendendo, demorou, não tive muita ajuda”, conta. Como mulher negra num mercado hostil, aprendeu a observar. Hoje, ao lado do sócio Kairê Jorge, ela comanda a Boogie Naipe, mas seu papel segue nas negociações, contratos e na gestão financeira, enquanto reflete sobre os desafios “fatigantes e surreais” das entregas exigidas dos artistas na era das redes sociais.
Maternidade, maturidade e a pergunta final
Na reta final da conversa, Eliane fala sobre os maiores amores: os dois filhos. O momento de relaxar, para ela, é vê-los felizes. Um se chama Kaire Jorge, em homenagem a Jorge Ben Jor, e o significado do nome a emociona: “O imperador guerreiro da terra” e a filha Ayomi Domênica, “Alegria da minha vida”. Ela confessa que os filhos são sua melhor companhia.
Sobre o etarismo, sabedoria adquirida e maternidade, Eliane se abre ao som de Caetano Veloso e Sade que embalam a conversa sobre o tempo que passa, o conhecimento que se adquiriu vivendo e a maternidade como uma das maiores felicidades de sua vida.
E, ao ser perguntada se hoje está sendo quem ela quer ser, a resposta vem serena e certeira: “Hoje sim. Fiquei muito tempo sem ser. Foi um processo. Defini lá atrás quem seria, passei um tempo sem poder ser, morri e me reinventei várias vezes. Mas hoje, eu estou sim sendo quem eu quero ser.” O quarto episódio do “Música que Não Toca” com Eliane Dias já está disponível no YouTube.
Sobre M_AI – Música Que Não toca Por Aí
Monique Dardenne apresenta ao mercado seu novo projeto de inovação musical: Música Que Não Toca Por Aí (M_AI), um clube vivo, intimista e transformador que nasce para conectar, provocar e criar soluções reais para o ecossistema da música. Depois de duas décadas movimentando a indústria da música com projetos que marcaram o setor —, entre eles, o lançamento de artistas como Karol Conká, Tropkillaz, Mahmundi e Jaloo, foi responsável por trazer a plataforma Boiler Room ao Brasil, uma série de iniciativas pioneiras e a criação do WME (Conference e Awards) —, Monique Dardenne cria um clube profissional e curatorial que não existe em nenhum outro ponto do mercado. Com isso surge o M_AI – Música que Não Toca por Aí, um clube que já reúne quase 200 profissionais altamente qualificados da música, da cultura e da comunicação, selecionados por convites exclusivos.
“O projeto é um laboratório vivo, com curadoria ativa, encontros pequenos e intensos, conversas profundas, experiências presenciais e conexões que geram impacto real para muito além do networking”, comenta Monique Dardenne. Segundo ela, o M_AI nasceu da necessidade de haver um “espaço seguro e inteligente de troca B2B, profundo e humano, longe do ruído dos grandes eventos e das conferências tradicionais. Aqui, o coração do projeto é reconectar a indústria musical à sua potência transformadora, gerando pensamento crítico, discutindo tendências, estimulando criatividade e aproximando agentes estratégicos da economia criativa”.
Em parceria com a Heineken, que assume como launch sponsor, os encontros do clube já estão acontecendo e têm reunido nomes importantes do mercado em rodas de conversa e processos colaborativos. Além disso, artistas selecionados participaram de um camping de produção musical que culminou na assinatura sonora do projeto. O clube propõe experiências presenciais que incluem troca e networking em um novo formato, “onde cada encontro já se torna conteúdo e memória coletiva”, comenta.
Dentro do M_AI nasce também o videocast Música que Não Toca por Aí, ocupando o bar Matiz, no centro de São Paulo, nesta primeira temporada. Gravado em um ambiente especial e composto por 7 episódios, o program revela quem “são as pessoas da música e não apenas o que elas fazem”. Em cada episódio, Monique vai entrevistar artistas e agentes fundamentais do mercado em um “papo profundo e divertido, guiado por histórias do coração contadas por 5 vinis da coleção pessoal do convidado, bastidores, aprendizados técnicos e momentos raros que permeiam a conversa e música de fundo ”.





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