“O Hip Hop é nosso, da quebrada” — Danzo transforma o presente em memória no álbum DOISMILEVINTEHOJE

Créditos: H.agst

“O Hip Hop é nosso, da quebrada.” A frase dita por Danzo durante a coletiva de imprensa de DOISMILEVINTEHOJE resume não apenas o espírito do novo álbum, mas também a posição que o artista ocupa hoje dentro da cena: a de quem entende o rap como herança, vivência e continuidade.

Mais do que uma gíria ou um marcador temporal, DOISMILEVINTEHOJE nasce como um conceito. O “hoje”, segundo Danzo, não se refere apenas ao agora cronológico, mas a um estado de presença — um disco pensado para existir no tempo sem envelhecer. Um trabalho que registra o presente com consciência histórica, dialogando com o passado e projetando o futuro.

Um álbum para viver o agora, sem prazo de validade

Durante a coletiva, ficou claro que o título do álbum carrega uma intenção maior: falar sobre viver o hoje sem abrir mão da memória. A ideia de atemporalidade atravessa tanto a sonoridade quanto a narrativa do projeto, que se afasta de fórmulas fáceis e se constrói a partir de pesquisa, escuta e amadurecimento.

Esse amadurecimento é assumido pelo próprio artista. Ao falar sobre o que há de novo em DOISMILEVINTEHOJE em relação aos trabalhos anteriores, Danzo destacou a evolução técnica, estética e lírica do disco.

“Desde O Cenário Certo Para o Teatro Perfeito e A Peça Final, a gente já vinha trabalhando algo mais sério, mais lapidado. Nesse álbum eu mostro mais evolução dentro da qualidade que eu disse que queria alcançar. Pesquisei outros tipos de sons, amadureci minha letra, minha caneta. É uma fase mais madura, de explorar referências nacionais e internacionais, de usar mais samples e buscar novas sonoridades.”

Pesquisa sonora e expansão estética

A construção do álbum passou por um processo intenso de pesquisa musical. Curiosamente, Danzo conta que ouviu menos trap convencional durante a produção e buscou referências em subgêneros e cenas menos óbvias.

“Eu me baseei muito em um som que mistura elementos africanos, drill, trap e música eletrônica. Um artista que atua na França, mas é marroquino e traz uma mistura muito louca de referências. Também ouvi muita música com melodia de violino, buscando criar vozes, texturas e pitches que trouxessem mais sentimento.”

Essa pesquisa se reflete diretamente na proposta do disco: expandir o trap brasileiro para novas geografias sonoras, sem perder a identidade do rap nacional.

“SP”, Racionais e a memória viva do rap

O single “SP” ocupa um lugar central dentro do álbum — não apenas musicalmente, mas simbolicamente. A faixa traz uma colagem de “Vivão e Vivendo”, dos Racionais MC’s, e teve seu videoclipe gravado no mesmo local onde o grupo filmou “Vida Loka Pt. 2”.

A escolha não foi casual. Segundo o diretor criativo Caio Reis, a equipe decidiu ir além da referência estética e buscar o espaço exato da gravação original. O local foi indicado pelo próprio Mano Brown, que acabou participando do clipe.

“O Brown ajudou até a achar a locação. É um lugar que ele frequenta até hoje. No dia, a participação dele foi uma surpresa. A mensagem do clipe já existia, mas com ele ali, prestando a homenagem junto, ganhou um peso a mais.”

Questionado sobre a possibilidade de um feat musical com Mano Brown em “SP”, Danzo foi direto e honesto:

“Eu pensei, sim. Mas acho que ainda preciso amadurecer mais. Pra mim, fazer um som com ele tem que ser o melhor da vida. Não pode ser desperdiçado. Eu quero estar ainda mais preparado pra esse momento.”

Quebrada, pertencimento e identidade

Nascido e criado no Jardim Nakamura, Zona Sul de São Paulo, próximo ao Capão Redondo, Danzo reforça que sua quebrada não aparece no álbum como cenário fictício, mas como origem real de tudo o que ele canta.

“Tudo que eu falo vem de lá. Foi onde ouvi meu primeiro rap, meu primeiro funk, onde compus minha primeira música. Eu sempre volto pra lá pra compor, trocar ideia, viver. É isso que me faz querer ir atrás desse corre.”

Essa vivência atravessa o disco do início ao fim, seja nas letras, nas referências culturais ou nos símbolos — como a blusa do jogador Adriano usada no clipe de “SP”. Para Danzo, a escolha foi quase intuitiva.

“Todo mundo da quebrada gosta do Adriano. Ele é inspiração. Futebol é uma das paradas que mais traz lembrança, que mais muda a vida da gente. Ele se encaixou no que eu queria passar.”

Feats, conexões e uma parceria que vira história

DOISMILEVINTEHOJE também reflete o momento atual da cena, abrindo espaço para colaborações que ampliam narrativas e perspectivas. Entre os feats do álbum estão Nanda Tsunami, Yuri Redicopa e MC Luanna, com quem Danzo mantém uma parceria de longa data.

Segundo o artista, a relação com Luanna nasceu na música e se transformou em amizade — daquelas que se constrói no estúdio, no palco e na vida.

“A gente acompanhou a carreira um do outro. Sempre gostou de se trombar pra cantar, pra fazer show. Virou uma amizade que eu quero levar pra sempre. A gente grava se divertindo, rindo, tirando onda. Pra mim, esse é o melhor jeito de fazer música.”

Durante a coletiva, veio ainda um spoiler importante: Danzo e MC Luanna estão planejando o lançamento de um EP colaborativo, fruto dessa relação construída ao longo dos anos.

Um disco que registra o presente sem esquecer de onde veio

Lançado pelo selo Labbel Records, da produtora Boogie Naipe, DOISMILEVINTEHOJE se firma como um álbum que não busca repetir fórmulas, mas expandir possibilidades. Um trabalho que conecta identidade, pesquisa, memória e experimentação, reafirmando que o hip hop segue sendo ferramenta de expressão, pertencimento e construção coletiva.

Porque, como o próprio Danzo deixou claro: o hip hop é nosso. E sempre foi da quebrada.

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