Por Guilherme Amaro

“Isso não é um luto, isso é o gurufim. A gente, do povo preto, celebra os finais.” Foi assim que Marcelo D2 definiu a turnê A Última Ponta, que marcou a despedida do lendário Planet Hemp. O encerramento aconteceu no sábado, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro — cidade onde tudo começou. O resultado foi um show histórico e catártico, à altura de uma banda que, ao longo de mais de 30 anos de trajetória, sempre transformou palco em manifesto. Uma carreira marcada também por um longo hiato no início dos anos 2000, mas jamais apagada da memória coletiva.
Diferentemente da apresentação grandiosa no Allianz Parque, em São Paulo, a despedida do Rio não contou com uma série de convidados. No palco, a formação reuniu Marcelo D2 (vocal), BNegão (vocal), Formigão (baixo), Nobru (guitarra), Pedro Garcia (bateria) e Daniel Ganjaman (guitarra e teclados). Houve apenas participações especiais carregadas de significado: Bacalhau, baterista da primeira formação do grupo, e Gustavo Black Alien, que surgiu em “Queimando Tudo” e incendiou de vez a Fundição Progresso. Black Alien permaneceu até o fim do show, cantando ou curtindo tudo do sofá posicionado em frente à bateria.
Com pouco mais de duas horas de duração, o repertório passou por todos os álbuns da banda. A abertura com “Dig dig dig” já deixou claro que não seria uma noite de despedida melancólica, mas de celebração. O público, que lotou a Fundição, respondeu com rodas, sinalizadores acesos e uma energia constante do início ao fim. Havia uma diversidade evidente na plateia, apesar dos preços elevados dos ingressos — que iam de R$ 162,50 (meia-entrada na arquibancada) a R$ 625 (inteira na pista).
Antes mesmo do início do show, o Planet Hemp prestou homenagem a Skunk, cofundador do grupo, morto em 1994 em decorrência da AIDS. Ao longo da apresentação, a banda reafirmou as bandeiras que sempre carregou: a defesa da legalização da maconha — afinal, são eles os autoproclamados “maconheiros mais famosos do Brasil” —, os pedidos por uma Palestina livre e outras manifestações políticas, incluindo a defesa da manutenção da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Formado em meados dos anos 1990, no Rio de Janeiro, o Planet Hemp surgiu da mistura explosiva entre rap, rock, hardcore e reggae, tornando-se rapidamente um dos nomes mais provocadores e influentes da música brasileira. Com letras explícitas, postura combativa e embates frequentes com a censura, a banda ajudou a moldar uma geração e abriu caminhos para a fusão entre rap e rock no país. Voltar ao Rio para encerrar a turnê não foi apenas uma escolha geográfica, mas simbólica: foi um retorno ao ponto de partida para fechar o ciclo.
Em um show épico, o Planet Hemp fez sua despedida de forma catártica no Rio de Janeiro. Agora, como o próprio Marcelo D2 definiu, o Planet Hemp deixa de ser uma banda e passa a virar uma lenda.





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