Jamés Ventura e Jota Ghetto lançam o neurótico e metropolitano EP “Asfáltico”

Dupla se une para representar as ruas de São Paulo. (Créditos da imagem: Enio Cesar)

Não se sabe 100% o que se quer dizer com “real Hip Hop.” É algo que vai do preciosismo dos fãs puristas a autenticidade como um elemento palpável que determina quem são os verdadeiros mcs, agentes da mudança cerebral da juventude. Tudo isso é subjetivo e inexplicável em palavras. Mas uma coisa é certa: quando você ouve o real Hip Hop, você sabe na hora o que é. E quando você ouve Jota Ghetto (conhecido nacionalmente do potente refrão de “Boa Esperança com Emicida e em trilha de cinema com o viciante single “Vagabounce” lançado pela gravadora do DJ KL Jay dos Racionais MC’s) e Jamés Ventura (autor do hino “O Rap é Fato”, que construiu uma prestigiada discografia no underground de São Paulo, tendo como grandes destaques em sua obra os LP’s “Espelho” e “Por Ventura”), você sabe que a realidade das letras de “Asfáltico”, novíssimo EP da dupla, é o que torna tudo tão eletrizante para o ouvinte. Parece “de verdade” porque é verdade. Não são maloqueiros de estúdio. São a vivência e inteligência pretas em cima do beat.

Ventura e Jota, trazem flows novos e gírias atualizadas com sentimentos daquele rap sujo, cru, que vários fãs entendem que está faltando. Estava, não mais. A faixa “Pé na Porta” é tão urgente no que precisa ser proferido que estar na abertura do EP mostra que não há tempo pra ser perdido no projeto. Na sequência vem Kool Herc, um drumless neurótico. Você simplesmente é tomado pela maneira que a voz de Jota entra na faixa. Ao profetizar “Sem malabares da rima, já tá no sangue a métrica / E a linha preta da Bic já vem com história e ética”, você entende o resgate cultural valioso que eles estão realizando. Frio, Jamés decreta: “Ser humano, o Hip Hop é um bairro rude. Nóis te respeita, mas se precisa, te enforca.” proclama Jamés, absolutamente sério sobre sua a cultura. “Downtown” traz um refrão de g-funk numa batida jazzy com direito a luxuosos scratches que conversam brilhantemente com versos dos artistas, providenciados pelo Maestro KL Jay. Ouvir
essa faixa é dar um rolê com a dupla. Jota Ghetto entra imponente e focado em “Gangue do Metrô”. Jamés faz contraste vindo no sapatinho, irônico. Quem compõe a gangue num feat intenso é a gigante Doly de Oliveira, uma das letristas mais ferozes da cena atual.

Encerrando o baile, a pilhada e provedora/resultado de insônia é “Dívidas e Reis”. O sample garante o feeling melancólico old school enquanto os hi-hats modernizam a faixa. É a base perfeito para os MC’s falarem de suas desconfianças, esperanças e planos. “Por saber que somos reis, e às vez deuses com contas no fim do mês” é a síntese perfeita pra servir de refrão para as rimas que ambos canetaram de mentes agitadas e focadas em viver. “Asfáltico” é sobreviver em SP. No Centro, na periferia. No caminho entre ambos, na ônibus lotado da manhã, o rolê de carro à tarde ou o último metrô da noite. É um disco para acompanhar o ouvinte nas ruas, em loop.

O gosto de quero mais é gritante, pois a dupla deixou em 5 faixas alguns dos melhores versos de suas respeitadas carreiras. O EP conta com produções de Ávila Beatz. Jamés Ventura assina a direção artística.

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