ESPECIAL SABOTAGE – Lançamento álbum póstumo

Sósia de Sabotage por Caio Cestari

Sósia de Sabotage por Caio Cestari

Por Lívia Mello

Rolou na última segunda-feira, 17, o lançamento do álbum póstumo do Sabotage com transmissão ao vivo via Spotify. No evento, pessoas que conheciam de perto o Maestro do Canão, como rappers, músicos, produtores e família , compartilharam conosco um pouco do que vivenciaram ao lado do cantor.

Luisa Martini, uma das realizadoras do projeto, comenta que viabilizar o disco era uma missão, pelo RAP, pela música brasileira e pelos adolescentes, que precisam ouvir Sabotage. Afinal, a música que ouvimos na adolescência contribui, e muito, para nossa formação. Levar a mensagem do Sabotage para uma geração que desconhece o trabalho dele com certeza não foi uma tarefa fácil. Este novo álbum demorou mais de 10 anos para ser lançado e a família do artista merecia a homenagem. “Ele sempre foi muito orgulhoso (do seu trabalho) e alegre”, comenta Sabotinha, filho do rapper, “(Hoje me dia) Em qualquer lugar a música dele está tocando, a tecnologia ajudou, ele estaria feliz”, completa. Tamires, a filha primogênita, desabafa: “teve um momento que perdemos a esperança, desanimamos com a notícia que o disco seria lançado. Mas finalmente chegou”. Os filhos lembram que ao chegar em casa depois da escola, encontravam Sabotage ensaiando “Um Bom Lugar” em frente ao espelho. Eles, mesmo sem prestar atenção na letra, interagiam com o pai e se divertiam com o jeito espontâneo do rapper. “A gente não prestava atenção na letra, mas fomos crescendo com base em “Um bom lugar, se constrói com humildade”, lembra Tamiris.

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Capa do álbum póstumo de Sabotage

O álbum recém lançado já se tornou um marco na história do RAP nacional. A nova geração terá o prazer de desfrutar de músicas inéditas do ícone, e o privilégio de ouvir grandes nomes narrando momentos especiais que viveram ao lado de Sabotage.

Ganjaman por Caio Cestari

Ganjaman por Caio Cestari

Ganjaman explica que a gravação do segundo disco de Sabotage começou em janeiro de 2013. Trabalharam juntos em estúdio de segunda a quinta-feira e na sexta-feira Sabotage faleceu. De lá pra cá teve muita coisa que aconteceu foi imprescindível para o momento que está acontecendo agora, e sempre pensamos em estar alinhados com a família. Hoje é um dia muito especial. Sabotage deve ser o maior nome do rap e naquela época não conseguíamos dimensionar o que ele seria. Se hoje em dia o RAP tem liberdade para estar no cinema e na televisão, e presente em diversos estilos musicais diferentes, todos nós devemos muito ao Sabotage.

Dj Cia por Lívia Mello

Dj Cia por Lívia Mello

DJ CIA: Música loka, flow loko, ouvi o depoimento da Tamiris e com certeza a gente sente o clima. Quando me entregaram “País da Fome“, música tava tomando forma e tinha umas horas no estúdio que eu olhava para o lado, porque parecia q ele estava lá, aquela energia. A gente vive esse momento lindo no RAP, e se ele estivesse aqui seria grande como Seu Jorge. Ele era atencioso, sério, gangsta, alegre com as crianças, Sabotage deixa para as crianças que começaram a ouvir rap, como ele era. A gente torce para que o RAP continua sendo um compromisso com  o social, com a educação. Fico feliz de ter a família dele aqui, estou feliz pela família, pelo rap e pelo espaço cedido. Viva Sabotage!

Zegon - Divulgação

Zegon – Divulgação

Zegon: Sabotage deu aula lá atrás de que música não tem barreira. Disseram que  novo álbum está muito moderno, muito novo, Sabotage se estivesse aqui estaria em 2026. Gravou com heavy metal, não tinha barreira. Minha melhor memória sobre ele, é que ele te segurava para cumprimentar e não te largava mais. Era muito carinhoso.

Rica Amabis: Uma das passagens musicais mais importantes da minha vida. Num almoço com Sabotage, ele disse: Rica você gosta de Chico Buarque, né? Ele cantou a música “O Meu Guri” inteirinha, com uma propriedade que foi impressionante. Para mim a música não era mais do Chico, era do Sabotage, vou levar essa versão dele comigo pra sempre.

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DBS por Caio Cestari

DBS: Sabotage tinha apneia da van, ele entrava e dormia, e quando rolava aquele cigarrinho que a Souza Cruz não vende, o Helião passava por ele e ele já queria fumar. Ele não tava dormindo. Na hora que vi a filha dele falando, lembrei quando fomos em uma premiação de cinema, e não sei se ele tava mais impressionado com o hotel ou com o prêmio, porque ele falou mais do hotel do que do prêmio. Ele disse que foi fazer um role com a filha dele e passaram por um condomínio e a Tamiris disse: “pai um dia quero morar num lugar assim” e ele respondeu “agora o pai tá cantando, quem sabe o pai não consegue fazer essa pra nóis”.

Lakers: Tive a honra de participar no primeiro disco e no segundo. Encontrei ele na estação e eu estava levando uns vinis na Porte Ilegal, e ele disse: “Negão, vamos almoçar?”. Entramos na fita, ele escolheu um negocio louco, o cara olhou pra nóis, de um lado um banguela e do outro um mal vestido. Aí chegou um tiozinho, que olhou pra nóis também e falou: “Mais alguma coisa?” O Sabotage tirou um pacote de dinheiro q ele tinha acabado de ganhar de um filme, uns 400$ e deu pro tiozinho.

Dexter por Lívia Mello

Dexter por Lívia Mello

Dexter: Minha historia com o Sabota é simples, porém tensa. Na segunda saída do 509-E no Clube da Cidade, 509-E e RZO, maconha pra caralho, fui ficar lá fora um pouquinho e o Sabotage veio perguntar da base da música “Oitavo Anjo”, ele queria cantar na base comigo, esse foi meu primeiro e único contato com ele e foi o suficiente pra respeitar ao extremo. Anos depois o Ganjaman disse que o Sabotage realmente gostava da base da “Oitavo Anjo” e ele queria uma base igual, meses depois o Mano Brown, que produziu esse som, disse: “Sabia que essa batida era para o Sabota? E a 157 era pra você?”. Naquele momento eu entendi a ligação espiritual. É tão forte e mágica, que mesmo não presente, ele faz a gente vestir a melhor roupa e estamos aqui no submundo, Sabota é alicerce.

Mr. Bomba: Eu posso falar que estava na gravação do primeiro disco do Sabotage, e desse dia o Sandrão só lembra do cigarro q eu levei. A  gente ficou de um jeito, que a vizinha jogou uns bagaço de laranja na gente e já caiu direto no Sabotage. Ele era uma pessoa caridosa e muito cuidadosa, a gente tava nesse sítio hospedado num show em BH e tava tanta zuera, churrasco, piscina, sauna, que a gente foi expulso. O Sabotage abriu a janela do busão e disse: “Eu mijei na piscina do Juvenal!”. Agora a rapaziada quer fazer RAP de flow rápido e Sabotage já dava aula lá atrás. Ele era muito avançado no termo técnico de fazer RAP. Ele é um ícone e vai ficar vivo para sempre nos adesivos dos caminhões, das lotações, nos grafites dos muros das favelas. Que a família tenha todas as bênçãos, é isso que ele mais quer.

Céu: Fui apresentada ao Sabotage como a mina que tinha cantado “Dama Tereza“, e ele abriu um sorriso largo e me deu um abraço enorme como se a gente se conhecesse a séculos. Ele é o elo e a união do enorme abismo social que vivemos, e tenho muito a agradecer o Instituto que me trouxe para perto para participar.

Rodrigo Brandão: Muita coisa foi falada sobre Sabotage e parte da minha missão é falar que ele era macumbeiro com muito orgulho, filho de Oxóssi e eu percebia que ele tinha muito de Exu por ser aquele que derruba os muros e constrói pontes, que leva a mensagem onde ela ainda não chegou. Um dia ele passou em casa e a gente começou a fazer a digestão, coloquei pra ele o grupo de RAP alternativo Antipop Consortium e ele adorou, falou que era um Wu Tang Clan que ninguém conhece, e eu lembrei que tinha ganhado uma camiseta do Wu Tang Clan com o logo como um bat sinal, eu joguei a camiseta pra ele e o cd do grupo Antipop. Fomos fazer um show com o Záfrica Brasil e tive a grande superpresa de ver que ele era um dos destaques da noite, e quando cheguei, ele estava com a camiseta, com o cd e falando para a molecada: “Mano esse aqui é um Wu Tang que ninguém conhece”. Ele nunca se limitou por sua condição social.

DJ Nuts por Lívia Mello

DJ Nuts por Lívia Mello

DJ Nuts:  Quem me apresentou o Sabotage foi o RZO e fui convidado para participar do disco. Todas as pessoas que estão aqui são as mesmas que estariam se ele pudesse escolher a dedo. Viramos vizinhos e pudemos aprimorar a amizade, é muito legal a família ser presenteada pelo lançamento, que não demorou 10 anos pra fazer, demorou 10 anos para ser lançado.

Tejo Damasceno: No dia que ele faleceu, a gente saindo do hospital, uma situação delicadíssima, uma situação triste, uma das mais tristes q já vivi. Me chamaram e falaram: “Ele não te considerava um amigo, ou só um parceiro de trabalho, ele te considerava um irmão”. E foi isso que me fez ir até o fim por esse trabalho.

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Helião: Quando o Sabota chegou na laje a gente apresentou para ele o Wu Tang. Ele começou a fazer música com influência dos caras. Eu ouço Young Thug na minha laje sozinho e eu choro, porque eu queria mostrar pra ele, Travis Scott essas parada, ele ia gostar demais. Agora os cara não sai dessa batida, mas de inicio não foi aceito, foi muito trabalho, estamos assimilando batidas novas, e tem um pessoal criticando, mas a gente não pode desistir. Ele trouxe pra nós amizade, era fiel, tava todo dia na minha laje, minhas filhas lembram dele, meu filho de 11 anos não lembra, mas tem curiosidade, ouve as músicas. O que aconteceu hoje aqui foi um bagulho da hora, acho que ele tá muito feliz com isso, ele não tinha dificuldade de se relacionar com outros compositores, outros estilos, isso ensinou muito pra nós, abriu a nossa mente. O RAP era restrito antigamente, hoje tá mais fácil, vamos sempre aprender, eu ouço uma musica dele, as vezes presto atenção em coisas que não tinha ouvido. Aqui todo mundo era amigo dele, tô emocionado, bagulho foi da hora, tamo de volta, queria que ele estivesse aqui, não tá… O melhor momento do RAP é agora. As pessoas que eu queria falar não tão aqui, que é o publico. Não fica questionando, confia no que a gente tá fazendo, os caras tão fazendo por nós, pelos caras da rua, da favela, do rap, tem que questionar menos e confiar mais. Eu não dependo muito disso, sei onde quero chegar, o que quero fazer. Estamos aqui pra mostrar o caminho, o flow novo, os assuntos novos, o pessoal do RAP tem que ser mais unido, confiar mais.

Bone Thugs n Harmony

Sandrão por Leandro Dazo

Sandrão: Um momento como esse é importante para musica negra. O Sabotage é meu companheiro, meu irmão, tinha aquele brilho, aquela crença de lutar e fazer o RAP dele. Foi a coisa mais importante de fazer, teve aquela confiança foi ate o final, fez amizade, foi humilde, soube andar pelo mundo, e para nós tá participando desse momento, da família do Sabotinha é uma coisa muito especial. Para mim e para todos eu tenho certeza que foi muito esperado e a gente tem a oportunidade de estarmos reunidos, temos que nos organizar, somar. Com certeza essa vai ser uma grande carruagem para levar as pessoas da periferia para um mundo melhor.

Tamiris: Antes de tudo acontecer realmente tive um sonho (se emociona), tô muito feliz pelo dia de hoje, tô emocionada porque eu tive um sonho e meu pai vinha falar comigo e nó estávamos num evento e tava todo mundo do RAP, e a gente tava encostado na parede, ele tava de braços cruzados assistindo e me perguntava se eu estava gostando e eu disse que sim, passava ele num telão, era um evento pra ele. Ele dizia q tava feliz, eu acordei e não entendi o sonho. Hoje eu entendo, ele veio me avisar que estava feliz pelo dia de hoje, e eu tava observando vocês contando ele como era na rua, e eu e o Wanderson observávamos a luta dele dentro de casa. Todo dia a gene chegava da escola e ele ensaiava, ouvia a mesma base, ele não chegou onde chegou por acaso. Não foi fácil pra ele. O que o Helião falou foi muito importante, porque ele foi muito discriminado lá atrás por ter outra visão do RAP. Não consigo ver ele como Sabotage, só como Mauro, e me orgulho muito dele e me espelho muito nele. Porque o sonho dele era q a gente cantasse. Ele ligava dois rádios, duas TV, e ensaiava assim todo dia. Ele ficava na frente do espelho fazendo careta, dançando, para fazer igual no palco. No meu sonho eu via todos os rostos que estão aqui.

Tamiris teve um sonho premonitório.

Assista a íntegra da transmissão:

Ouça o álbum completo: